Revista de filosofía

Butler: Corpos que importam ou sobre a pergunta pela materialidade do corpo

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FOTOGRAFÍA DE UNA PERFORMANCE REALIZADA POR DIANA J. TORRES

 

Why should our bodies end at the skin,

or include at best other beings encapsulated by skin?

Donna Haraway

 

Resumo

A pergunta sobre o a materialidade do corpo é problematizada por Judith Butler no seu livro Corpos que importan como resposta a problemas despertados por seus próprios trabalhos sobre performatividade de género, publicados 10 anos antes, e também podem ser pensados como inspiradas pelas lacunas que Butler encontra no trabalho de Michel Foucault sobre a sexualidade e o corpo. Este artigo trata de traçar a trajetória do problema, começando pelas denuncias de Foucault à construção dos corpos, passando pela elaboração de Butler sobre a performance de género e mostrando alguns caminhos ou soluções que ela adota e indica ao problema.[1]

Palavras-chave: corpo, gênero, performatividade, materialidade, construtivismo, sexualidade.

 

Abstract 

The question about body materiality is problematized by Judith Butler in her book Bodies that matter in response to problems aroused by her own works about gender performativity, published 10 years earlier, and can also be thought of as inspired by the gaps that Butler found in Michel Foucault’s work about sexuality and body. This paper traces the trajectory of the problem, starting with Foucault’s denunciations of body construction, passing through Butler’s elaboration about gender performance and showing some ways or solutions she takes and indicates for this problem.

Keywords: body, gender, performativity, materiality, constructivism, sexuality.

 

O problema em torno da materialidade do corpo envolve a pergunta: o que é o corpo? E, mais elaboradamente, como considerar o corpo em sua existência material? Como não ignorar ou abordar esse detalhe que o corpo sente, deseja, vive, morre, dorme, dorme, defeca, adoece, etc.? Essa questão aparece no trabalho de Butler, a partir de pelo menos duas teorizações anteriores, das quais ela parte para elaborar sua tese. Uma delas é o que foi elaborado por Michel Foucault em seu trabalho sobre a disciplina e a sexualidade. A outra é oriunda de seu próprio trabalho sobre o gênero e o sexo, publicado no início dos anos 90 do século XX, onde defendia a tese de que até o sexo (que costumava ser considerado como dado natural e irrelevante para o exercício social do gênero) também é histórica e socialmente construído no tempo e no espaço de uma época que o formula discursivamente e o afirma de uma maneira e não de outra. Essas idéias também estão relacionadas aos trabalhos de Foucault, especialmente sobre a sexualidade como socialmente construída por meio de relações entre conhecimentos enunciados sobre os corpos e os micropoderes que organizam os modos pelos quais esses corpos se relacionam entre si e existem, mas o que vão além de considerar a divisão de gênero como constitutiva de todo corpo, e também de abordar questões sobre uma materialidade de corpos que não pode ser ignorada em nome da tese construtivista. Nesse sentido, Butler supõe (com Foucault) que o que o corpo é está sempre subordinado a uma discursividade que o define e regula e, principalmente, regula o dito e o não dito de uma época.

A questão da materialidade do corpo surge dessas teses e Butler tenta resolvê-las, especialmente no contexto de seus próprios trabalhos, de modo a reproblematizar e reformular estes temas para tentar pelo menos indicar algum caminho. Às teses que despertaram essas abordagens passo neste momento, para aos poucos desvendar de forma mais detalhada a maneira como nossa pensadora resolve a questão.

 

Butler e os sendeiros abertos por Michel Foucault

Em seu livro mais conhecido sobre o tema do corpo, Vigiar e Punir (1975), Foucault investigou como os processos disciplinares inerentes às sociedades tornam dóceis os comportamentos dos indivíduos através da domesticação de seus corpos e costumes, por meio da regulação de seu viver: se organizam seus horários, se criam modelos de conduta a serem seguidas e normas institucionais são incorporadas de modo individualizado ao ponto de naturalizá-las. Os corpos humanos (e sua sexualidade incluída neles) afiguram como alvos de saberes e normas de conduta que se constituem nas próprias relações inter-humanas entre os corpos individuais e na auto-vigilância frente a tais normas. Nos trabalhos sobre a sexualidade, o filósofo radicaliza essas concepções, mostrando que uma idéia da natureza sexual humana também é construída segundo regras sociais vigentes, que não são fixas, mas que restringem a sexualidade a movimentos previsíveis e a sempre se manifestar na oposição entre natural e pervertido, de tal maneira que cria, assim, uma sexualidade regulada pelo corpo e suas funções consideradas normais ou avariadas. Nesse jogo de opostos, a sexualidade humana tem seu exercício orientado pelo que se sabe e se diz do sexo (corpo), para que esse corpo sexuado (e sexualizado) se torna pedra fundamental para a elaboração das regras que governam as práticas sexuais. Um corpo natural e naturalmente sexual, ligado a um (e único) gênero, é assim regulado de acordo com uma concepção de normal (e anormal) de suas funções e sua maneira de ser um corpo estará atrelada a isso. No caso de escapar do que essas regras prescrevem, será considerado um corpo avariado, descomposto, pervertido e doente.

O giro que pode ser percebido na concepção de Foucault sobre o sexo, o gênero e a sexualidade, em relação a outras teorias sobre o corpo que foram elaboradas mais ou menos na mesma época, como a psicanálise freudiana muito criticada por ele – ou ainda algumas teses da segunda onda do feminismo, às quais suas teorias estiveram expostas, embora ele nunca as tenha citado -, é que se recusa a pensá-los da oposição entre natural e cultural, especialmente para evitar cair em uma crítica do cultural como aquilo que esmagaria a natureza de modo a qualificar aquela como opressora e esta como devendo ser liberado. Exatamente nesta formulação identifica-se seu grande ponto de crítica, e que Butler assume como ponto de partida em seus trabalhos sobre o gênero. Para Foucault, na oposição entre natureza e cultura, há uma disposição micro-política que envolve poderes e saberes (enunciados) sobre os corpos – especialmente sobre o sexo e o gênero, acrescentaria Butler – onde essa oposição os reduz a uma dinâmica (ou dispositivo) que os formula entre un dentro e un fora e, nisto, regula e normatiza suas ações.

Foucault, nesse sentido, enfatiza que na construção normativo-discursiva de o corpo, como modelo natural, estão implicadas as normas para os corpos em suas existências particulares. Disso resultaria que o humano a mulher e o homem, acrescentaria Butler – está preso a uma maneira prescritiva de exercício de vida (de ser, de agir com os demais e de entender a si mesmo) onde a verdade de seu corpo, de sua sexualidade – e de seu sexo, acrescentaria Butler – determina seus deveres como tal. Em outras palavras, o humano está preso a uma subjetividade, modos de ser e se conceber como sujeito e de agir no mundo, a partir de um dever de ser (assim) que coincide com um é verdadeiro ser (assim). O que salienta o prescritivo de tal subjetividade, uma vez nela se obedece a uma natureza enunciada do corpo.[2]

Essas articulações também implicam na qualificação do trabalho de Foucault (e também o de Butler) como construtivista (e estruturalista) no que diz respeito à definição do humano. Contudo, a diferença no construtivismo de Foucault (e o de Butler) é que suas críticas são dirigidas a um momento anterior à denúncia de uma construção discursiva cultural do corpo: atacam à própria formação de uma discursividade ligada a uma época como espaço-tempo (histórico) que cria condições de possibilidade para que discursos construtivistas se formem. Assim, trata-se de uma crítica ao construtivismo, enquanto articulador da ideia de que o corpo é um produto cultural, e de sua radicalização, na medida em que defende que os binômios envolvidos na construção do corpo também são construídos segundo uma rede de relações que os permite.

A partir disso, é possível defender que também a natureza está formulada por discursos enunciados em nossas culturas, do mesmo modo que estão os discursos sobre a distinção entre natural e cultural, e isso ocorre dentro de jogos historicamente localizados que envolvem linguagem e práticas sociais, culturais e políticas. No entanto, o problema que parece permanecer ou inclusive piorar nesse construtivismo radical é o da relativização ou mesmo da romantização do que se vive de fato ao se ser corpo. As questões que surgem são sobre como os corpos podem ser puros constructos discursivos? Como a este corpo que está aqui lendo, escrevendo, que tem suas experiências sexuais e emocionais, que se materializa na morte, na violência, na dor, na alegria, no gozo, no amor, podemos lhe atribuir uma existência puramente discursiva?[3]

FOTOGRAFÍA DE UNA PERFORMANCE REALIZADA POR DIANA J. TORRES

 

Butler e seus próprios sendeiros

Outro dos fatores que levaram Butler à pergunta sobre a materialidade do corpo (ou melhor, dos corpos, no plural) são as teses que ele apresentou em seu próprio trabalho, mais especificamente em seu livro Problemas de género. Lá, ele avalia que o corpo materialmente considerado, com seus órgãos e sistemas anatômicos, suas dores e desejos, só ganha algum sentido quando a ele sejam relacionados discursos que sempre o marcam e enquadram a um gênero. Em linhas muito gerais, Problemas de género apresenta uma idéia de construção do corpo mais ou menos nos mesmos moldes da teoria foucaultiana sobre a sexualidade, onde um corpo natural é entendido como constructo discursivo, mas cuja existência implica uma dimensão produtiva e ativa, formativa e nunca neutra, passiva e estática, da sexualidade.

Ao se atribuir un conjunto de características aos corpos, quando se enuncia o que é o corpo, se está criado un corpo, ou uma idéia de um corpo em geral que só faz sentido ao ganhar esses predicados. Nesta enunciação/fabricação, o corpo aparece como referência a uma natureza humana que justifica seus atos, mas que também é moldada e naturalizada em função desses atos. É nesse caráter atuante e auto-produtivo de um corpo naturalizado discursivamente, e que age como uma natureza fundadora do gênero, que o sexo não pode mais ser pensado, segundo Butler, como um dado orgânico e a priori da natureza humana, mas como um produto elaborado em um jogo ou exercício de forças entre as ações corporais e todas as linhas que formam a sexualidade, e que, como tais, incidem sobre as determinações de gênero.

Essas formulações de Butler não se limitam, é importante enfatizar, a uma herança do que foi formulado por Foucault sobre a sexualidade, uma vez que também englobam a apreciação detalhada da teses do feminismo, como a elaborada por Simone de Beauvoir sobre a não-naturalidade do gênero; e da psicanálise freudiana com suas teorias das pulsões sexuais e do complexo de Édipo; ou, ainda, sobre trabalhos mais recentes e com os quais ela dialogou diretamente, como os de Gayle Rubin[4] e Johan Scott,[5] sobre os sistemas de separação e união entre sexo e gênero. Butler realiza suas primeiras reflexões de Problemas de Gênero de modo muito próximo às teses desses últimos trabalhos, e assume em relação a eles uma postura mais radical. Seu construtivismo sobre o gênero assume um movimento profundamente foucaultiano —e também desconstrutivista e derridiano— que é o de expor os processos de formação do sexo, do gênero e das sexualidades, em seus contextos históricos, políticos e discursivos.

Butler considera a formulação sociocultural do gênero e do sexo como realizada em conjuntos discursivos que produzem o que se diz e se repete constantemente sobre eles, mas também como o que se oculta e o que não se diz sobre ambos. Em outras palavras, na construção do gênero não há apenas uma coprodução do gênero e do sexo de modo correlativo, mas também a produção do não-dito e do invisível dos corpos. Trata-se de pensar a relação de produção do corpo em um nível anterior e mais profundo, tal como Foucault propôs, com o detalhe de que essa produção não pode ignorar, como fez Foucault, que os corpos sempre aparecem divididos por se sexo/gênero.

No mesmo sentido, ainda é importante destacar que Butler não se dirigiu a um construtivismo radical por fidelidade a essa teoria, mas por causa de seu compromisso filosófico em problematizar os processos de formação do gênero e, principalmente, as consequências políticas e subjetivas desta formação. Para isso, ele usa a teoria dos atos de fala, elaborada por Austin, para criar uma idéia de gênero, onde performatizar o gênero é mais do que um ato ou atuação (papel) que coincide ou se opõe a um dado normativo presente em uma regra do corpo (o sexo). Performatizar o gênero é um ato que ocorre em um exercício contínuo e constante de se ser e se agir de um certo modo, e será justamente isso que definirá a norma do gênero e do próprio corpo (ou sexo) como dado. Nesse agir, o que se é, o que se quer e o que se sente, são movimentos de formulação, repetição e reiteração discursivas que definem o gênero e o sexo, o corpo e suas pulsões sexuais. No entanto, quando Butler defende que o gênero é construído no exercício de viver e no interagir dos humanos de modo performativo, e que este define o sexo tal como o sexo o gênero, também defende que a linguagem realiza enunciados criadores. Na própria medida em que são enunciados, os corpos se realizam nessas falas/atos, sob normas que lhes permitem existir, ou que o permitem de uma certa maneira (e não de outras). Nas normas do gênero, então, se regula o que se pode/deve ser dito e o que não, e isso cria uma “realidade” dos corpos e, mais ainda, cria uma normatividade sob a qual estes corpos podem existir.

Isso traz a idéia de coprodução entre sexo e gênero na performance de gênero: enquanto o gênero se constrói socialmente como um papel a ser assumido em função de diferentes fatores que definem constantemente as normas a serem seguidas por cada gênero (e que estão ligadas ao momento histórico e às relações político-científicas vigente), o sexo seria consolidaria e se reforçaria em uma (ou outra) materialidade específica em função de sua relação com o gênero, da incidência dessas normas sobre el. O gênero, portanto, aparece neste trabalho de Butler, como um ato de performativo que não é despertado pela natureza do corpo/sexo, mas que age sobre ele. Como ato performativo, o gênero é gradualmente reforçado na repetição ritualizada das ações e discursos que o formam e, em contrapartida, incide sobre o sexo, agindo sobre sua formação e determinando suas características. Sem querer reduzir suas teorizações sobre o gênero a uma simples circularidade, acredito que esse problema pode ser resumido mais ou menos assim: o sexo não é temporariamente anterior ao gênero, mas o gênero atua sobre o corpo como uma norma que é constantemente repetida. Nessa repetição, o gênero se gera como norma – que em nosso contexto ocidental é uma norma heterossexual – e se impõe ao corpo/sexo. No sentido oposto, o sexo/corpo é guiado pela heteronorma do gênero e funciona sobre ele como reforço dela. Assim, o gênero é produtor do sexo tanto quanto este é daquele. Ambos se co-produzem a partir da interferência da cultura, dos muros, as pontes, os carros, trens, aviões; do tempo; das relações sexuais, a pornografia, a música, a indústria da música; a produção de látex em larga escala, as epidemias, as guerras; etc., etc., etc.; e tudo isso age sobre o sexo e o gênero, e ambos agem sobre tudo isso.

Neste emaranhado de linhas e atos repetitivos de forças normativas que se co-produzem, tudo parece se relativizar, inclusive o corpo: o corpo e o sexo narrados nesta produção parecem estar reduzidos a uma dimensão discursivo-normativa (heteronormativa); e uma resistência ou realocação dessa dinâmica de auto-produção-regulação não parece encontrar uma saída, uma vez que a norma regula os corpos e os corpos regulam a norma. No entanto, quando essa dinâmica se repete para se conservar, também é possível que ela não se imite completamente, de sorte que ao alterar detalhes de sua repetição, pode reescrever a norma, mesmo que seja para continuar a normalizar. Em uma concepção do gênero como performance, Butler encontra a possibilidade de repensar o corpo e sua fabricação discursivo-performativa.

FOTOGRAFÍA DE UNA PERFORMANCE REALIZADA POR DIANA J. TORRES

 

A pergunta pela materialidad do corpo

Um dos problemas consequentes de tudo o que formulou de maneira bastante complexa e cuidadosa em Problemas de Gênero, e que Butler identifica muito rapidamente, é que toda essa teoria parece tirar das experiências do corpo o peso ou a importância que pode ter. Assim, procura resolver o problema dos limites entre a materialidade e os discursos formativos do corpo/sexo no livro Corpos que importam. No prefácio da segunda edição do livro, ele escreve: “É claro que os corpos vivem e morrem, comem e dormem, sentem dor e prazer, suportam doenças e violência e a gente poderia proclamar ceticamente que esses ‘fatos’ não podem ser descartados como uma mera construção”.[6] E essa referência abre precedentes para ela também perguntar: “Por que a construção é entendida como artificial e descartável?”[7]

As respostas mais apropriadas a essa questão, parecem ser as que defendem uma não-negação ou não-oposição ao artificial do corpo, mas propõem parar de opor sua construção à sua natureza e passar a outras possibilidades de ser del corpo, ou dos corpos serem, existirem e se formularem. De uma perspectiva que já não opõe o natural e o cultural e assume um construtivismo radical, mas não esquece da materialidade do corpo, Butler abraça essa questão formulando-a da seguinte maneira: “Se tudo é construído discursivamente, como explicar essa materialidade do corpo?”[8]

A filósofa tenta responder ao problema adequando e reformulando sua teoria sobre a performatividade de gênero para uma que não ignore a materialidade do corpo e, acima de tudo, não reduza as experiências corporais possíveis a um conjunto de experiências prescritas. Desse modo, a resposta que elabora ao problema não retoma uma natureza do sexo e tampouco renuncia ao construtivismo ou reformula algum tipo de ontologia do ser do corpo. Pelo contrário, suas elaborações teóricas seguem um argumento que reforça a idéia de produção de sentido para o corpo na repetição performativa que é realizada na linguagem. Nesse sentido, ela argumenta que o acesso ao corpo material é realizado na linguagem, mas mais do que tudo, é ao dizê-lo que lhe damos sentido, o colocamos no universo do inteligível e o fazemos ser. Fora isso, não seria possível considerá-lo outra maneira de existir como matéria, visto que ao se fazer referência a ele, já o estaríamos propondo. Quando a linguagem denota, ela também cria, e quando repete sentenças, reitera o criado. No entanto, isso não é um ato deliberado. “Em um primeiro momento, a performatividade deve ser entendida não como um “ato” singular ou deliberado, mas como a prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia”.[9]

Quando se diz que o corpo é de um sexo, de um gênero, de uma maneira ou de outra, já que um movimento está sendo operado na linguagem que, além de o nomear, também o fabrica com esses atributos, sob o sentido estes lhe imprime. Quando se fala sobre o corpo de modo geral (sobre como são suas funções), portanto, se lhe está produzindo no momento mesmo em que isso é enunciado. Nesse sentido, à pergunta o que é o corpo? se responde que: é o que se diz que é no momento mesmo em que se fala.

Não obstante, a partir de sua teoria da performance, onde as normas se reiteram no exercício constante de agir/falar, Butler enfatiza que a materialidade do corpo não se origina no discurso, ou seja, o discurso não seria o marco zero ou a fonte inicial da produção da materialidade do corpo, como se antes não existisse e depois passasse a existir e então se fixasse como tal. Antes, a fala é o processo e o meio de produção corporal. Trata-se, mais, de que o discurso é processo e meio da produção do corpo. Ë importantes, assim, pensar esta produção na repetição e sem nenhum tipo de temporalidade. Neutralizar a temporalidade, então, faz com que se possa seguir afirmando que o corpo é produzido discursivamente, mas à pergunta o que é o corpo? se responde: o corpo está sendo o que está sendo dito que é nesse momento que falamos.[10] A ênfase sobre o estar sendo destacaria o caráter produtivo do discurso e não sua origem. A professora Angela Fonseca sugere nos que:

Pela consideração do performativo a relação entre linguagem e corpo não decorre de um ato construtivo isolado, mas de um processo nunca definitivamente acabado, de modo que a materialização dos corpos pela linguagem indica não uma produção demiúrgica da matéria, mas os processos de referencialidade que confere contornos inteligíveis aos corpos que se fazem em sua relação continuada com as normas e as significações linguísticas.[11]

A materialidade do corpo, nesse sentido, é mais que um detalhe importante a ser considerado, é inevitável para a própria produção do corpo, uma vez que “afirmar que o discurso é formativo não significa dizer que ele origina, causa ou compõe exaustivamente aquilo que concede. Pelo contrário, significa que não há referência a um corpo puro que não seja ao mesmo tempo uma formação adicional desse corpo”.[12] Uma concepção que, de acordo com a leitura que estou fazendo aqui, parece apontar a respostas animadoras frente as questões que disso se seguem: como os corpos poderiam ser reinventados?, ou: como sería possível resistir às normatividades que lhes marcam, (como a heteronorma, por exemplo), uma vez que seriam respondidas pelo movimento performativo na linguagem em sua repetição e reformulação constante?

 

Bibliografia 

  1. Butler, Judith, Bodies That Matter: on the discursive limits of sex, Routledge, New York & London, 1993.
  2. ___________, Bodies That Matter: On the Discursive Limits of ‘Sex’, Routledge, New York,
  3. ___________, Cuerpos que importan, sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”, Alcira Bixio, Paidós, Buenos Aires, 2010.
  4. ___________, El género en disputa, El feminismo y la subversión de la identidad, Maria Antonia Muñoz, Paidós, Barcelona, 2007.
  5. ___________, “¿puedo llevar una vida buena en una vida mala?” En: Judith Butler, European Graduate School, Trad. M. Ricalde y S. A. Rueda, I, Frankford, December 14, 2012.
  6. ___________, Quadros de Guerra: Quando a vida é passível de luto?, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2015.
  7. ___________, Marcos de Guerra, las vidas lloradas, Paidós, México, 2010.
  8. Haraway, Donna, “A Cyborg manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century.” En: Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature, Routeledge, New York, 1991.
  9. Foucault, Michel, Vigilar y Castigar, nacimiento de la prisión (1975), Trad. Aurélio Garzón del Camino, Siglo XXI, México,
  10. ______________, Historia de la Sexualidad 1, La voluntad de saber (1976), Trad. Ulises Guiñazu, Siglo XXI, México, 2009.
  11. Rubin, Gayle, “Sexual Politics, the New Right, and the Sexual Fringe” In The Age Taboo, Alyson, 1981, pp. 108-115.
  12. Scott, Johan, “El género: Una categoría útil para el análisis histórico”, In: Lamas, Marta (Comp.) El género: la construcción cultural de la diferencia sexual. México: PUEG,166, pp. 265-302.

 

Notas

[1] O estudo que realizo neste artigo é parte dos resultados da pesquisa que realizei em minha tese de doutorado, defendida e aprovada na Facultad de Filosofía y Letras da UNAM em novembro de 2015, e para o qual recebi uma bolsa de doutorado do CONACyT.

[2] A Isso Butler acrescentaria, expandindo e até contradizendo Foucault, que também enfatiza uma subjetividade de natureza marcada pelo corpo sexo/gênero, dividido entre feminino e masculino, entre fêmea e macho, entre mulher e homem, e que também determina como alguns desses corpos são vistos e concebidos como não-sujeitos, como abjetos, como outros da norma. Sobre isso, sugerimos a leitura do seu livro Quadros de Guerra, quando a vida é passível de luto, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2015.

[3] É interessante pensar como essas questões foram pouco consideradas por Foucault. Ele as abordou apenas uma vez, de maneira literária, em uma intervenção chamada Le Corps Utopique, que leu na Radio France Culture em 1966, antes de elaborar suas teorias sobre a sexualidade. Penso que não ter tocado profundamente na questão da materialidade do corpo se deve a que responder às perguntas implicaria reduzir o corpo, antecipadamente, a algo que o prenderia ao que é dito sobre o corpo, como se uma definição qualquer sempre o prenderia a um modelo. Por outro lado, também evitou o tema para não se recair nas teorias da fenomenologia, às quais ele se opunha, principalmente às que entendiam que haveria um corpo (corps ou chair) de uma experiência anterior à linguagem.

[4] Cf. Rubin, Gayle, Óp., cit., pp. 108-115.

[5] Cf. Scott, Johan, Óp., cit., pp. 265-302.

[6] Butler, Judith, Cuerpos que importan, ed. cit., p.13. As referências aqui se mantém em espanhol, pois o texto foi escrito originalmente neste idioma, e também porque ainda não há tradução para o português deste livro de Butler [Nota da Tradutora]

[7] Idem.

[8] Ibidem, p. 54.

[9] Butler, Bodies That Matter: On the Discursive Limits of ‘Sex’, ed. cit., p. 33 (tradução livre).

[10] No problema da materialidade também está envolvida a questão da morte do corpo, devido à sua presença e existência que determina o fim do corpo e a interrupção da vida (e de qualquer experiência possível), mas também do ponto de vista político, onde estão as discussões e ações políticas para a preservação do corpo, para a possibilidade de manter o corpo vivo. É o problema da sobrevivência que envolve todo um emaranhado de questões sobre biopolíticas ligadas às sociedades e relacionadas aos Estados e suas relações de poder no globo, mas também a cada indivíduo e ao movimento subjetivo de se manter com vida. Isso envolve a preocupação por se manter, mas mais do que tudo, em manter a vida dentro de um conjunto de experiências que não sejam a completa privação de direitos (dignidade, alegria, liberdade e todo um conjunto de condições que deve ter uma vida que não esteja morta). É nesses contextos que Butler lança a pergunta que corpos importam? e faz uma leitura do presente onde aponta para a importância que certos corpos têm em contraste com a completa insignificância de outros em nossas configurações sócio-mundiais. Uma dessas relações que lava o corpo a assumir o movimento de permanecer com vida, e com uma vida vivível, é a negociação de sua condição de vulnerabilidade, que torna alguns mais dependentes dos outros, mas, mais do que tudo, faz possível inúmeras formas de biopolítica de desigualdade, que só podem ser superada a partir de si mesmas.Cf. Judith Butler, “¿puedo llevar una vida buena en una vida mala?” En: Judith Butler, European Graduate School, Trad. M. Ricalde y S. A. Rueda, I, Frankford, December 14, 2012.

[11] Cf. Fonseca, Angela, Crítica da Subjetividade e a crise do humano: Butler, pós-estruturalismo e performatividade, publicado en este número de Reflexiones Marginales.

[12] Butler, Judith, Cuerpos que importan, ed. cit., p. 31.